Palavras (que não ficam presas na garganta)
Resumo
O título deste editorial parafraseia livremente o diálogo rarefeito de uma personagem de Karhozat / Perdição, o filme de Béla Tarr — com argumento do realizador e de Laszlo Krasznahorkai, prémio Nobel da Literatura em 2025 —, cujo mundo monocromático é um lugar fechado sobre si próprio, opressivo e claustrofóbico. Nesse mundo sem transcendência, marcado pela omnipresente lama e chuva, mas hipnótico num olhar que se detém, sem se deter, sobre o absurdo da vida — como mostra a alegoria inicial dos baldes enormes suspensos por cabos metálicos num vaivém permanente —, nesse mundo absurdo, severo e misantrópico, acentuado pela música melancólica e também hipnótica de Mihály Víg, a palavra fica presa na garganta e uma personagem chega a perguntar se faz sentido falar.
